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Mina de terras raras vendida a empresa dos EUA por US$ 2,8 bilhões em Goiás: o que muda na prática?

Mina de terras raras vendida a empresa dos EUA por US$ 2,8 bilhões em Goiás: o que muda na A venda de uma mina localizada em Minaçu, na região norte do esta...

Mina de terras raras vendida a empresa dos EUA por US$ 2,8 bilhões em Goiás: o que muda na prática?
Mina de terras raras vendida a empresa dos EUA por US$ 2,8 bilhões em Goiás: o que muda na prática? (Foto: Reprodução)

Mina de terras raras vendida a empresa dos EUA por US$ 2,8 bilhões em Goiás: o que muda na A venda de uma mina localizada em Minaçu, na região norte do estado, coloca Goiás ainda mais em evidência no cenário mundial de terras raras. A Serra Verde, única mineradora fora da Ásia a produzir em escala comercial os quatro elementos magnéticos essenciais (neodímio, praseodímio, disprósio e térbio), foi adquirida pela USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões, aproximadamente R$ 14 bilhões. Entenda abaixo o que isso significa. Terras raras: cidade em Goiás é a única fora da Ásia a produzir em escala comercial quatro elementos essenciais 🔎 As terras raras formam um grupo de 17 elementos químicos essenciais para o funcionamento de diversos produtos modernos — de smartphones e televisores a câmeras digitais e LEDs. Apesar de usados em pequenas quantidades, eles são insubstituíveis. A maior parte desses minerais está concentrada em dois pontos: na China e no Brasil. A compra foi anunciada pela empresa norte-americana na segunda-feira (20) e prevê a combinação das operações das duas companhias para liderar toda a cadeia produtiva, desde a extração das terras raras, às etapas de separação, processamento dos elementos, até a fabricação de ímãs permanentes. Do montante de US$ 2,8 bilhões, US$ 300 milhões serão pagos em dinheiro e o restante em ações. Além da aquisição, o acordo inclui um contrato de fornecimento de 15 anos. Também serão estabelecidos preços mínimos para os minerais, o que garante previsibilidade de receita e reduz riscos para a operação. ✅ Clique aqui e siga o perfil do g1 Goiás no WhatsApp Em entrevista ao g1, Ricardo Grossi, presidente e diretor de operações da Serra Verde, informou que a venda não irá promover mudanças imediatas na operação no Brasil e que a gestão local segue inalterada. “A mina e a planta em Minaçu seguem operando normalmente, sob a liderança da equipe atual, com continuidade da estratégia já em curso. A operação permanece focada no ramp-up e na expansão previstos, e a gestão local segue inalterada. Ao mesmo tempo, o acordo fortalece a empresa ao dar acesso a tecnologia ao longo de toda a cadeia produtiva e maior integração global, sem alterar o dia a dia da operação”, explicou. A mineradora iniciou sua produção comercial em janeiro de 2024. De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em 2025, foram exportadas quase 678 toneladas de terras raras para a China. No entanto, em 2026, Goiás exportou apenas 2 toneladas para os Estados Unidos, com valor de US$ 67 mil. No ano passado, foram exportados 51 kg para os norte-americanos. Impasse Na sexta-feira (24), o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que o subsolo do território brasileiro pertence à União e que cabe a ela regulamentar a exploração de terras raras e minerais críticos. Em entrevista ao programa à emissora governamental Canal Gov na sexta-feira (24) , ele ressaltou que o memorando de entendimento entre o governo de Goiás e os Estados Unidos para a exploração de terras raras no estado tem um vício de inconstitucionalidade e "não se sustenta". O g1 entrou com o governo de Goiás para pedir um posicionamento sobre a declaração do ministro, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem. Além disso, deputados do PSOL chegaram a protocolar, na última quarta-feira (22), uma representação na Procuradoria-Geral da União (PGR) questionando a legalidade da aquisição da mineradora Serra Verde pela empresa americana USA Rare Earth (USAR). Mina de terras raras em Minaçu (GO) é alvo de acordo bilionário entre empresa brasileira e americana; operação prevê expansão da produção e fornecimento por 15 anos Divulgação/Serra Verde Vai gerar empregos em Goiás? Trabalhadores que atuam na extração de terras raras, em Minaçu Divulgação/Serra Verde Atualmente, a mineradora emprega cerca de 400 pessoas no município de 27 mil habitantes, sendo aproximadamente 72% da força de trabalho formada por moradores da região. De acordo com o presidente da Serra Verde, há expectativa de que a venda gere novos empregos em Goiás. “A empresa combinada terá receitas asseguradas por um acordo de fornecimento de 15 anos, uma estrutura financeira sólida, operações diversificadas em várias partes do mundo e acesso a tecnologia de ponta no setor, o que a posiciona como líder global”, disse Grossi. Inicialmente, o foco da mineradora continua sendo a execução do projeto de otimização e expansão para elevar a produção para 6,4 mil toneladas por ano de óxidos de terras raras até o fim de 2027. “Depois disso, a empresa combinada estará em uma posição mais forte para crescer e investir, potencialmente criando novas funções e promovendo um desenvolvimento econômico significativo em torno de Minaçu”, destacou. Em entrevista ao g1, o prefeito Carlos Leréia (PSDB) disse que o acordo é um avanço importante não apenas para Minaçu ou para o estado, mas para o país. “Eu vejo que é um ganho significativo para o Brasil e especialmente para a minha cidade”, ressaltou. “A mineração gera muito emprego e não só empregos só do período da pesquisa. Quando você vai implantar é muito emprego, depois quando você vai extrair continua muitos empregos. Então, é extremamente importante. E também a garantia do dinheiro, porque antes estavam vendendo para a China e o valor era muito reduzido. Agora os valores do quilo, da tonelada, vai aumentar em torno de seis a oito vezes”, afirmou. Leréia relatou que a população encara com otimismo o investimento em terras raras na região, tendo em vista que a legalidade da extração de amianto, que era uma das bases da economia local, está em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF). “A Serra Verde preencheu esse espaço ofertando emprego e aumentando a movimentação econômica da cidade”, destacou o prefeito. Terras raras: mineradora de Goiás conquista destaque mundial na mineração Centro da cadeia Para a presidente do Conselho Regional de Economia de Goiás (Corecon-GO), Adriana Pereira de Sousa, a operação coloca o estado de Goiás no centro de uma cadeia produtiva estratégica para a economia global contemporânea. De acordo com Adriana, municípios como Minaçu, onde se concentram operações minerais desse tipo, tendem a experimentar o aumento da arrecadação via royalties (CFEM), expansão da atividade econômica e maior circulação de renda. No entanto, a especialista ressaltou que os efeitos fiscais mais robustos — como aumento significativo de arrecadação e geração consistente de empregos — tendem a se materializar no médio e longo prazo. "A geração de empregos diretos e indiretos é uma possibilidade concreta, mas depende do grau de integração da empresa com fornecedores locais, da exigência de conteúdo local e de políticas de qualificação profissional. Sem essas condições, há o risco de que os benefícios sejam parcialmente 'vazados' para fora da economia regional, com importação de insumos e mão de obra especializada", destacou. LEIA TAMBÉM: VENDA: Terras raras: Empresa americana compra mina em Goiás por US$ 2,8 bilhões ECONOMIA: Terras raras em Goiás: exploração pode gerar mais de 12 mil empregos diretos PARCERIA: Terras raras em Goiás: estado assina parceria com Japão para extrair minerais Qual o impacto do negócio para Goiás? Mineração Serra Verde é considerada a única operação fora da Ásia a produzir, em escala, os quatro elementos magnéticos essenciais de terras raras Divulgação/Serra Verde Ao g1, o presidente do Sindicato das Indústrias de Mineração de Goiás e do Distrito Federal (MINDE), Luiz Vessani, lembrou que, há cerca de 15 anos, as pesquisas com argilas iônicas e terras raras eram pouco conhecidas, inclusive entre geólogos, e tinham baixo interesse econômico. Segundo Luiz, ao longo desse período, a Serra Verde precisou superar desafios tecnológicos próprios de uma iniciativa pioneira para chegar ao patamar atual. “Eu avalio que esse acordo reforça a segurança do projeto por duas razões principais: a solidez financeira da empresa envolvida, que demonstra capacidade de atuação no mercado, e a garantia de preços mínimos, que protege o projeto das flutuações e dos riscos desse ambiente”, defendeu. Ele também avaliou o acordo em um cenário global, afirmando que há uma busca por alternativas à produção concentrada na China. Para ele, é essencial que existam projetos estruturados e seguros fora desse eixo. “A expectativa é que esse movimento estimule o avanço de outros projetos em Goiás, especialmente em regiões que ainda têm menor desenvolvimento socioeconômico. Podemos citar, por exemplo, iniciativas em Nova Roma, Mundo Novo e Iporá, que são projetos estratégicos nesse contexto”, pontuou. De acordo com Luiz, na medida em que esses projetos avancem, a tendência é que haja aumento da arrecadação, contribuindo para o desenvolvimento regional de forma mais ampla. Joel de Sant’Anna Braga Filho, secretário de Estado de Indústria, Comércio e Serviços de Goiás (SIC-GO), afirmou que a aquisição de US$ 2,8 bilhões representa um marco para o estado. O movimento reforça que Goiás passa a se destacar não só para o Brasil, mas para o mundo como um polo estratégico na produção de terras raras. “Isso é importante porque mostra que com segurança jurídica, com responsabilidade no trato ambiental, a gente consegue avançar em uma área que é muito estratégica para o mundo todo nesse momento, que é a transição energética, onde o domínio das terras raras e dos metais críticos, vão ser essenciais para a geração das novas tecnologias", destacou. Ele ressaltou que já existe um acordo firmado com o Japão para ampliar pesquisas e investimentos na exploração de minerais críticos, com foco nos chamados óxidos de terras raras. O secretário explicou que Goiás mantém um dos processos de licenciamento ambiental mais rigorosos do mundo e que, com responsabilidade e cooperação com outros países, o estado tende a atrair mais negócios. Também reforçou que o objetivo é não apenas exportar o mineral bruto, mas transformá-lo internamente, agregando valor e impulsionando setores ligados a metais estratégicos. Qual o interesse dos Estados Unidos? O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), o que representa 25% do território existente. O país fica atrás apenas da China, que é responsável por mais de 60% da produção global e quase 90% do refino desses elementos. Em 2025, como mostrou o g1, os Estados Unidos já haviam demonstrado interesse em realizar acordos com o Brasil para a aquisição de minerais considerados estratégicos. Recentemente, a Serra Verde recebeu um financiamento de US$565 milhões com a Corporação Internacional de Desenvolvimento dos Estados Unidos (DFC) para a otimização de suas operações e a expansão da capacidade da mina. Em janeiro de 2023, a Energy and Minerals Group e a Vision Blue Resources investiram US$ 150 milhões na Serra Verde, e, em outubro de 2024, foi anunciado um novo aporte de US$ 150 milhões da Denham Capital, da Energy and Minerals Group e da Vision Blue Resources. O que acontece agora? De acordo com o presidente da Serra Verde, Ricardo Grossi, o próximo passo é concluir a transação, que ainda depende de aprovações regulatórias e do cumprimento de condições usuais de fechamento. A expectativa é que essa etapa seja finalizada no terceiro trimestre de 2026. Em seguida, a integração das operações ocorrerá de forma gradual. “Os impactos mais concretos — como geração de empregos, aumento de investimentos e dinamização econômica — devem ser percebidos progressivamente ao longo do avanço do ramp-up da operação, com marcos mais relevantes até 2027, quando a planta deve atingir sua capacidade plena. Além disso, a parceria posiciona o Brasil de forma mais relevante no mercado global de minerais críticos, o que pode atrair novos investimentos no setor no médio prazo”, ressaltou. Há riscos ou pontos de atenção? De acordo com a economista Adriana Pereira de Sousa, apesar das oportunidades, também existem riscos econômicos e fiscais relevantes. "Um dos principais pontos de atenção é a dependência excessiva de uma commodity, sujeita à volatilidade de preços internacionais, o que pode gerar instabilidade na arrecadação pública", afirmou. Segundo a especialista, outro aspecto crítico envolve a governança e a sustentabilidade. "A exploração de recursos minerais exige rigor ambiental e transparência na gestão dos recursos públicos gerados. Sem isso, os custos sociais e ambientais podem superar os benefícios econômicos, especialmente em municípios de menor porte", pontuou. A economista frisou que transformar esse potencial econômico em desenvolvimento efetivo exige planejamento, regulação eficiente e políticas públicas que assegurem que a riqueza gerada seja, de fato, convertida em bem-estar para a população local ao longo do tempo. O que são terras raras? Os elementos de terras raras possuem propriedades eletrônicas, magnéticas e óticas essenciais para diversas tecnologias modernas Gil Leonardi /Agência Brasil As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos conhecidos por suas propriedades magnéticas e condutoras únicas.Apesar do nome, eles não são necessariamente "raros" na crosta terrestre, mas são extremamente difíceis de serem encontrados em concentrações puras e de difícil extração mineral. Conforme dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), os elementos são classificados da seguinte forma: leves: lantânio, cério, praseodímio e neodímio; médios: samário, európio e gadolínio; pesados: térbio, disprósio, hólmio, térbio, túlio, itérbio, lutécio e ítrio. Os elementos produzidos e comercializados pela mineradora em Minaçu – neodímio (Nd), praseodímio (Pr), disprósio (Dy) e térbio (Tb) – são fundamentais para a cadeia de tecnologias de baixo carbono, como veículos elétricos, turbinas eólicas e eletrônicos de alta performance. Mineradora Serra Verde explora quatro elementos de terras raras em Minaçu. Arte/g1 📱 Veja outras notícias da região no g1 Goiás. VÍDEOS: últimas notícias de Goiás